quinta-feira, junho 29, 2006

HOUSE, MD


















[via A Fonte]
O PAX JULIA, Beja e o Alentejo em geral
O Carlos elenca um conjunto de perguntas prévias que considera útil fazer a fim de definir um rumo para o Pax Julia. Eu não sei nada do que se passa no Pax Julia. Mas sei que o Carlos comete um erro groseiro, imperdoável a um gestor. O Carlos esquece-se do "contexto". E como se esquece do "contexto", esquece-se de fazer as perguntas vitais para compreender quase tudo o que acontece e não acontece em Beja, que tenha a ver com dinheiros públicos (e, infelizmente, não só). A título pro bono completo então a lista de perguntas que o Carlos iniciou, com as ditas questões vitais, que, grosso modo, se podiam fazer a qualquer organismo público da região:
- Que interesses partidários e privados pode satisfazer?
- Quem é que pode mandar?
- De que partido é?
- De que facção do partido é?
- A que família pertence?
- Que favores deve a quem?
- Que negócios privados tem com quem?
- Que pontos fracos tem?
- Quanto dinheiro temos?
- Quantos favores podemos pagar? Quais os mais urgentes?
É claro que, depois de respondidas estas questões, já não há dinheiro, competência ou vontade para se chegar as outras...
Disparates
Ai rapaz, rapaz, rapaz
Tu só dizes disparates, disparates, disparates
E tanta asneira, tanta asneira, tanta asneira
Que p’ra tirar tanta asneira,
não chegam cem alicates.

quarta-feira, junho 28, 2006

A Costa Alentejana
É comum – e não é sem razão – ouvir-se falar na excepcionalidade da costa alentejana, nas suas praias, no seu estado quasi selvagem, na necessidade de a proteger das tentações urbanistas, na tendência “natural” de autarcas, construtores, especuladores e outros homens do poder “algarvizarem” a dita costa, etc. etc. etc.
Eu cheguei há poucos dias de 2 semanas de férias na Carrapateira. A Carrapateira é um lugar da freguesia da Bordeira do concelho de Aljezur. É verdade que administrativamente já não faz parte do Alentejo, mas pertencendo ao Parque Natural da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano pertence a uma “unidade” territorial que, não fora a ribeira de Odeceixe e o enorme outdoor a anunciar ao viajante que tinha chegado ao Algarve, é praticamente inquestionável.
Ora, durante esses dias que estive por lá Pedro Rolo Duarte escreveu uma crónica a dizer adeus, ao cabo de 20 anos, a Odemira. Dizia ele que aquilo estava a ficar estragado. Li essa crónica por acaso, porque na Carrapateira não se vendem jornais. Só em Vila do Bispo. Em Vila do Bispo, de resto, não há bombas de gasolina. Só em Sagres. Na Carrapateira, em Vila do Bispo e em Sagres, por seu turno, não há nenhum supermercado. Só em Budens; quase em Lagos.
Onde é que eu quero chegar? Entendamo-nos. Abomino grandes aglomerados de gente. Nesse aspecto sou como o outro: “Sempre, sempre ao lado do povo. O povo de um lado e eu do outro!” E é por isso que vou para a Carrapateira, e é por isso que, quando em Mil Fontes, prefiro ir para a Furnas. Mas que diabo! Tenho eu o direito de, em nome do prazer do isolamento estival, congelar as hipóteses de desenvolvimento das terras? É evidente que o “ordenamento” de que falava Rolo Duarte, e o desordenamento também, tem quase sempre sido uma trampa neste país. Mas num raio de 50 km a partir da Carrapateira eu só tenho boas praias (as melhores do país, na minha opinião). Não há mais nada. Nada! Não há jornais, não há supermercados, não há cybercafés. Nada. Sossego, pouca gente, praias excelentes. Caracóis e outros petiscos também há; mas muito poucos. Salada de polvo ou pata roxa tive que ir comer a Porto Covo, no dia do regresso.
Deve ser, para muita gente, muito pitoresco ser atendido por uma senhora com buço, num tasco mal lavado, num território “virgem”. É muito libertador poder tomar banho nu, numa praia deserta. E é muito “urbano” defender a preservação destes territórios tal como estão. Mas os críticos do progresso nunca perguntam: e se eu vivesse aqui, teria todas as condições para o fazer?

terça-feira, junho 06, 2006

[Praia do Amado, Carrapateira]
Está quase...
Este blog vai a banhos...
Até dia 26 é só grelhados, vinho branco fresco para acompanhar o peixe, cerveja gelada para acompanhar a carne, t-shirt, calções, pele salgada dos banhos de mar, alguns charutos ao sol, siestas, e muita, muita diversão com a família. Tudo o resto vai ter de esperar para depois do regresso. Até já!

segunda-feira, junho 05, 2006

[Blogosfera revisitada] A Coluna Infame e o tempo em que se escreviam posts às 2:44 AM
Dois dias antes de terminar um dos mais determinantes blogs da curta história da blogosfera portuguesa, a Coluna Infame, Pedro Mexia escrevia assim:
PERGUNTA ERRADA: Perguntam-me regularmente: «mas não abdicaste da tua vida para manter o blog?». Mas quem é que vos disse que eu tenho uma vida? PM

[Ponta sul] Portugal, como sempre!
Eu sei. Eu sei que os meus amigos andrades – e o Francisco é o seu guru blogosférico – discordam. Mas no Euro sub-21 que terminou ontem, Portugal foi igual a si mesmo. Perdeu quando não devia (podia) perder, e no último jogo em que ainda lhe sobrava uma ténue hipótese lá ganhou. Mas é claro que, nestes casos, nunca basta a Portugal ganhar no último jogo. Até porque quando basta ganhar, Portugal empata… por culpa do árbitro, do roupeiro, do tempo, de Deus… Quando, de facto, ganha o último jogo precisa de o fazer por 15 a 0! E os “outros”, no outro jogo, precisam perder, pelo menos, por 10 a 0! Mesmo quando a equipa conta com os génios injustiçados do sistema (leia-se Ricardo Quaresma) falta-lhe sempre “um bocadinho assim”! [Um bocadinho de qualidade, um bocadinho de atitude, um bocadinho de entrega, um bocadinho de jeito, um bocadinho de ousadia…]

Com Scolari – é sobre isto que os andrades discordam – as coisas, em Portugal, são diferentes. Com Scolari fomos apurados para o Mundial (apenas pela 4ª vez na história dos Mundiais de futebol) sem espinhas. À conta do nosso mérito. Com Scolari obtivemos o melhor resultado de sempre, em selecções A, nas competições internacionais de futebol: vice-campeões da Europa de futebol. Com Scolari! Só com Scolari! Já sei, estávamos a jogar em casa. Mas neste Euro sub-21 também… De resto, esse argumento diz-nos o quê? Que a Alemanha vai ser campeã do mundo?

sexta-feira, junho 02, 2006

Há cães de sorte, vidas de cão, dias de cão e prioridades de merda!
Notas soltas sobre a Escola
Há 9 anos, era eu pouco mais que recém-licenciado, concorri para dar aulas no distrito de Beja – nos então designados “mini-concursos” – e fiquei colocado! Na altura tinha apenas uma licenciatura em Sociologia, obtida na Universidade Nova de Lisboa; tão mal forjada para as minhas necessidades de emprego como para as necessidades do mercado.

O facto de ter uma licenciatura em Sociologia tornava-me, na altura e creio que ainda hoje, legalmente habilitado para dar aulas de Português/História ao 2º ciclo do ensino básico; apesar da mesma legislação não me considerar capaz de leccionar… Sociologia!

Quando me apresentei na escola deram-me o horário com a anotação 318/91. Perguntei o que é que aquilo queria dizer e responderam-me que era o diploma legal que regulamentava o ensino especial e, no caso, o ensino que eu deveria leccionar às minhas turmas. Preocupei-me, li o diploma, preocupei-me ainda mais, falei com o conselho directivo que me tranquilizou e me encaminhou para o gabinete de psicologia da escola. No gabinete de psicologia tranquilizaram-me – outra vez! – e disseram-me que não me preocupasse, que não tivesse muitas expectativas em relação aqueles miúdos e que me limitasse a ir com eles ao centro de recursos, ver uns filmes, conversar um bocado… enfim, passar o ano.

Não sei se nesta altura do relato, para avaliar convenientemente a situação, interessa lembrar que eu não tinha experiência lectiva, não tinha qualificações para lidar com crianças com necessidades especiais, nunca tinha dado uma aula e que a única coisa que me habilitava a dar aulas de Português/História (ou passar o tempo com os alunos, como explicitamente o gabinete de psicologia da escola me sugeriu) era uma licenciatura em Sociologia. Por esta altura poder-se-á perguntar se o cenário era este, porque raio resolvi eu aceitar o desígnio. A explicação é simples. Estava desempregado, queria trabalhar (o que nem sempre são condições cumulativas), disponibilidade para sair de casa e ir arranjar emprego a 200 kms de casa (de Cascais a Beja), tinha um “perfil” de habilitações que o “mercado” reconhecia e validava, uma imensa vontade de aprender e, já nessa altura, uma grande apetência para os processos de ensino/aprendizagem.

Conheci finalmente os alunos. Eram 14. Distribuídos por 4 (!) turmas o que dá uma média de 3,5 alunos/turma. Uma turma tinha 6, a outra tinha 4 e ainda havia 2 turmas com 2 alunos cada. Nenhum deles tinhas necessidades especiais – sobretudo deficiências ou incapacidades como o discurso correcto lhes chama agora – como o diploma anunciava. Tinham de facto necessidades especiais, mas de outra ordem. Resultavam essas necessidades especiais de serem crianças provenientes de montes isolados e de lugarejos rurais, onde a sociabilidade era pouca, pobre, rude e, não poucas vezes, violenta.

Fosse lá como fosse, a escola tinha resolvido contratar um professor de português e um de matemática e outros de outras disciplinas para dar “acompanhamento” mais personalizado (um acompanhamento sobre o qual nem sequer tinham pensado muito…) a estas crianças.

Nem vou falar sobre o efeito que esta pedagogia, alegadamente inclusiva, e o seu efeito estigmatizante, consubstanciado no facto de se criarem turmas especiais para os “bichos do mato” ou, como lhes chamavam na altura, os “319”, tinha sobre as crianças.

Vou falar de prioridades. E de custos. Que é coisa que a esquerda normalmente acha que faz parte da agenda suja da política.

Ora bem, eu tinha na altura um horário completo (deveriam rondar, não me recordo com exactidão, as 21 horas lectivas) tal como todos os meus colegas que tinham, também eles, aproximadamente 4 turmas “normais”. Uma turma “normal” contava com uns 20 e tal alunos. Façamos a coisa pelos 22. Ora cada colega tinha (4 turmas x 22 alunos) 88 alunos. Eu tinha 14. Recebíamos todos aproximadamente o mesmo. Eu deveria receber, líquidos, qualquer coisa como 180 contos. Ora, isto fazia com que os meus alunos, para desenvolverem competências em Português/História, custassem, cada um deles, (180 cts/14 alunos) quase 13 contos por mês. Ao passo que os outros alunos custavam apenas (180 cts/88 alunos) 2 contos; para o mesmo objectivo.

A pergunta que eu faço, e faço-a a pensar nesta minha experiência particular, como a faço a pensar nos acontecimentos em discussão sobre a violência nas escolas urbanas e sub-urbanas é a seguinte: e os melhores? Quem se preocupa com os melhores? Aqueles que, em turmas “normais”, aguardam pelo curso normal, na melhor da hipóteses, da mediania geral? Pior: quem se preocupa com aqueles que, não sendo ainda pré ou proto ou recém delinquentes, pelo convívio e sobretudo pela partilha do espaço escolar com todos aqueles que já são qualquercoisa-delinquentes acabam por não se desenvolverem como mereciam numa escola que estimulasse a excelência e que não andasse sempre a olhar para os mais violentos, e para os mais carentes de ajuda e para os mais atrasados.

É evidente que não julgo que se devam deixar cair, ainda mais, os mais fracos. O que não suporto é ver a Escola consumir-se até à exaustão com toda a problemática dos coitadinhos, nomeadamente por via dos efeitos que o meio exerce sobre eles, como se o facto de se nascer e viver na Cova da Moura tornasse o individuo, inexoravelmente, num marginal inimputável ou merecedor de maior atenuante que outro marginal qualquer nascido e criado na Quinta da Gandarinha.

O que não suporto é ver a Escola transformar-se numa arena em que aos alunos e aos pais dos alunos é permitido insultar, cuspir, agredir e incendiar os cabelos dos professores, com total impunidade. E um Estado que ao invés de proteger a Escola e de a centrar no essencial a desloca para tarefas que deveriam estar a ser, no limite, caso os pais sejam irremediavelmente casos perdidos, desempenhadas pelo Instituto de Reinserção Social, pela Polícia, pelos Tribunais e pela Segurança Social.

quinta-feira, junho 01, 2006