quarta-feira, junho 28, 2006

A Costa Alentejana
É comum – e não é sem razão – ouvir-se falar na excepcionalidade da costa alentejana, nas suas praias, no seu estado quasi selvagem, na necessidade de a proteger das tentações urbanistas, na tendência “natural” de autarcas, construtores, especuladores e outros homens do poder “algarvizarem” a dita costa, etc. etc. etc.
Eu cheguei há poucos dias de 2 semanas de férias na Carrapateira. A Carrapateira é um lugar da freguesia da Bordeira do concelho de Aljezur. É verdade que administrativamente já não faz parte do Alentejo, mas pertencendo ao Parque Natural da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano pertence a uma “unidade” territorial que, não fora a ribeira de Odeceixe e o enorme outdoor a anunciar ao viajante que tinha chegado ao Algarve, é praticamente inquestionável.
Ora, durante esses dias que estive por lá Pedro Rolo Duarte escreveu uma crónica a dizer adeus, ao cabo de 20 anos, a Odemira. Dizia ele que aquilo estava a ficar estragado. Li essa crónica por acaso, porque na Carrapateira não se vendem jornais. Só em Vila do Bispo. Em Vila do Bispo, de resto, não há bombas de gasolina. Só em Sagres. Na Carrapateira, em Vila do Bispo e em Sagres, por seu turno, não há nenhum supermercado. Só em Budens; quase em Lagos.
Onde é que eu quero chegar? Entendamo-nos. Abomino grandes aglomerados de gente. Nesse aspecto sou como o outro: “Sempre, sempre ao lado do povo. O povo de um lado e eu do outro!” E é por isso que vou para a Carrapateira, e é por isso que, quando em Mil Fontes, prefiro ir para a Furnas. Mas que diabo! Tenho eu o direito de, em nome do prazer do isolamento estival, congelar as hipóteses de desenvolvimento das terras? É evidente que o “ordenamento” de que falava Rolo Duarte, e o desordenamento também, tem quase sempre sido uma trampa neste país. Mas num raio de 50 km a partir da Carrapateira eu só tenho boas praias (as melhores do país, na minha opinião). Não há mais nada. Nada! Não há jornais, não há supermercados, não há cybercafés. Nada. Sossego, pouca gente, praias excelentes. Caracóis e outros petiscos também há; mas muito poucos. Salada de polvo ou pata roxa tive que ir comer a Porto Covo, no dia do regresso.
Deve ser, para muita gente, muito pitoresco ser atendido por uma senhora com buço, num tasco mal lavado, num território “virgem”. É muito libertador poder tomar banho nu, numa praia deserta. E é muito “urbano” defender a preservação destes territórios tal como estão. Mas os críticos do progresso nunca perguntam: e se eu vivesse aqui, teria todas as condições para o fazer?

7 comentários:

sónia disse...

Muito bem visto. É genéro folclore, é giro, é típico, mas só para férias...para viver nem pensar!

Planície Heróica disse...

Tens toda a razão e subscreveria totalmente a tua posta não fora o facto de ela ser um argumento que serve bem ao bom senso (essa coisa rara) mas também, infelizmente, ao 'espírito pato bravo' -em amaricanu 'wild duck way of life'- essa coisa tão comum entre politicos locais, 'agentes económicos' e construtores civis...).

Um abraço,
Francisco Nunes

Carlos a.a. disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Carlos a.a. disse...

Pois, mas então, bem vistas as coisas, sigamos a tua máxima de sempre ao lado do povo: não estraguem esse paraíso e, ao lado, mesmo ao ladinho, ponham a modernidade que sem ela não sabemos viver!
É do 8 para o 80, mas não se destruiu Paris para fazer La Defense e elas, hoje, coabitam nessa mesma Paris.

Abraço

arc disse...

Pois é Pedrito. Não tinha tido ainda oportunidade de opinar no teu blog! A minha folgada vida de funcionário público não mo permitia.... Agora vou opinar! Como a maioria dos Portugas adoro opinar. É só ligar a rádio num daqueles forums e é ouvir o mais puro filósofo luso opinar sobre todo e qualquer assunto tal como o Nuno Rogeiro.... A temática que levantas aqui não é nova e vai morrer brevemente porque a costa Vicentina tem os dias contados, (tal e qual como é actualmente). Goste-se ou não, "é o inexorável ritmo do progresso", e resta-nos esperar que os patos bravos de agora tenham um pouco mais de consciência e civismo e não repitam o que de pior se fez no Algarve. Sim, os PB's! Não estão á espera que a configuração paisagística que vá surgir naquela costa vá ser regulamentada por alguém!? Desde que o investimento público em obras públicas (passe a redundância) decresceu, o pânico instalou-se nos principis finaciadores dos partidos. Só o anúncio do aeroporto e do TGV veio acalmar as hostes. Durante anos os Portugueses (GOVERNO) financiaram compadrios e esquemas envolvendo obras públicas, engordando meia dúzia de PB's que subempreitavam obras a pequenas empresas de construção que surgiram como cogumelos nos anos 90. Essas pequenas empresas (que empregam realmente pessoas - embora na maior parte dos casos emigrantes ilegais)tendo o pessoal e o capital necessário, edificaram empreendimentos a um ritmo impresionante, de modo a que haja um número impressionante de casas por ocupar em Portugal. Agora com a fonte seca, a construção abranda, com tudo o que lhe está ligado directa e indirectamente. Assim, muitos favores se estão a dever a muita gente, e a teimosia (por vezes cega) dos autarcas locais vai aos poucos sendo vencida pelo argumento do progresso. Já agora, e por curiosidade, podiam perguntar a um Algarvio de Albufeira se prefere a sua terra como está ou como era, ie, insuportavelmente cheia em Agosto e vazia nos restantes meses do ano... já não falando do aspecto urbano e ambiental. A evolução do urbanismo e do turismo (tal como tudo neste país) vai depender da educação que demos e iremos dar aos nossos filhos. No país que tem a mais alta taxa de analfabetismo da Europa, exige-se selos do carro pela internet e declarações de impostos....e respeito pelo ambiente!

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