quinta-feira, maio 04, 2006

[Retratos dos nossos] Trás-os-montes, Carrazeda de Ansiães, 1954
O castanheiro centenário marcava a paisagem e a aldeia. Naqueles tempos não havia nada mais de que nos pudessemos orgulhar, para lá daquele castanheiro. Era, em boa verdade, a única coisa bela e a única coisa boa. Tudo o resto era uma existência miserável. Do amor - aquele que cantam os poetas - nunca lhe vimos, eu e os meus irmãos, sequer a sombra; nem o de mãe. O pastoreio era doloroso; com os pés descalços, no campo, não há flauta de pan que alivie a dor. A taberna do Jaquim era fétida e sombria e nós, com a nossa idade, nem sequer lá podiamos entrar. A água para a cozinha e para as lavagens - poucas - era transportada à mão, numa bacia, da fonte da aldeia até ao casebre desgraçado onde viviamos.

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