segunda-feira, maio 15, 2006

[Hieronymus Bosch]


O Perdão, supremo castigo!

O Perdão não é um acto humano, e, portanto, também não é um acto de humanidade. Ao contrário. Quem perdoa amesquinha e faz sofrer aquele a quem perdoa da pior maneira possível. Perdoando, o que perdoa sobe aos céus e, do alto da sua santidade martirizada, amnistia o perdoado. Fazendo-o, não só não lhe retira a culpa, como lança o ofensor na solidão dessa mesma culpa. É como quem diz: olha, estou fora, o que me fizeste já passou e, pela minha parte, estás perdoado; se ainda sentes alguma culpa (e é certo que sente), estás sozinho nesse deserto de sofrimento.

O Perdão é, indiscutivelmente, um acto Divino. Não um acto de um Deus infinita e exclusivamente bom. Mas um acto de um Deus omnipotente, que cede também à tentação, que castiga e faz sofrer. Um Deus do Antigo Testamento. Um Deus como o retratado no livro de Job. Um Deus que falha no inverosímil desígnio anunciado pelo Novo Testamento: o da omnipresente, infinita e exclusiva bondade.

Num ponto, contudo, a Igreja tem razão. Quando, por via da confissão e da contrição, e em nome de Deus, absolve dos pecados os penitentes, fá-lo verdadeiramente; já que ressalva que a sua absolvição só é verdadeira na medida em que o arrependimento seja verdadeiro.

O Perdão só resulta e é efectivo, para aqueles que se sabem pecadores e que sofrem com essa falha. E é nesses que o castigo fere mais fundo.